Mostrando postagens com marcador Vicente Aleixandre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vicente Aleixandre. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de abril de 2021

Noche cerrada, de Vicente Aleixandre

 




Olá,


Vicente Aleixandre (1898-1984) tinha quase 80 anos e era o mais consagrado poeta espanhol de sua geração quando foi anunciado como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1977, em razão de sua "escrita poética criativa que ilumina a condição do homem no cosmos e na sociedade atual, ao mesmo tempo que representa a grande renovação das tradições da poesia espanhola entre as guerras", conforme o anúncio oficial da Academia Sueca. De fato, a década de 1970 foi a que mais poetas o Nobel premiou: ao lado de Aleixandre foram escolhidos Pablo Neruda, Harry Martinson, Eugenio Montale, Odysseus Elýtis e Czeslaw Milosz. Diferentes entre si, a escolha desses autores evidencia uma tendência da Academia Sueca, naquela década, para os escritores de expressão essencialmente lírica. 

A escolha do nome de Aleixandre causou espanto nas rodas literárias do mundo (ele era era pouquíssimo editado fora da Espanha), mas não em seu país natal, onde, ao lado de Rafael Alberti e Jorge Guillén, era um dos sobreviventes da Geração de 27, grupo de poetas, contistas, dramaturgos e prosadores espanhóis que, influenciados pela estética vanguardista das duas primeiras décadas do século XX, em especial o surrealismo, passou a renovar as letras espanholas. Sua produção se estendeu entre as décadas de 1920 e o início dos anos de 1980, alcançando imensa popularidade em seu país. Opositor do franquismo desde o início, Aleixandre não se exilou como fizeram muitos escritores espanhóis perseguidos. No entanto, foi sistematicamente censurado ao longo dos anos, o que de certo modo acentuou seu prestígio e sua avaliação nos meios literários de seu país. Mas não apenas por isso, como veremos.

Os críticos costumam assinalar duas fases distintas da escrita poética de Vicente Aleixandre. A primeira delas, iniciada na década de 1920 e estendendo-se até meados dos anos 1950, diz respeito à influência das imagens e visões experimentais advindas da influência surrealista, com o homem a transitar por lugares, sentimentos e sensações, tudo isso marcado por um formalismo experimental e vigoroso. Já a segunda fase, iniciada na segunda metade da década de 1950 e que vai até a morte do poeta, apresenta um Vicente Aleixandre menos preocupado com as experimentações de caráter de formal e mais centrado liricamente na figura do homem em meio ao existente e onde as imagens são acessórias à experiência de viver. No Brasil não há livros de Aleixandre publicados e mesmo em Portugal encontramos apenas uma Antologia de Vicente Aleixandre, editada em 1977 e fora de circulação. Por isso, para esta postagem, recorri à antologia Noche cerrada, em espanhol original e publicada em 1998. Curta, mas bastante significativa, apresenta poemas de todos os livros publicados em vida pelo autor, desde Ámbito (1928) até Poemas de la consumación (1974). Selecionei três deles para comentar. A tradução é minha, pelo que peço sinceras desculpas.

Comecemos pelo poema que dá título à antologia:


NOITE FECHADA (1928)
 
Campo nu. Apenas
a noite desarmada. O vento
insinua surdas
batidas contra sua tela.
 
A sombra avança,
fria, sobre teu seio
sua grave seda, negra,
fechada. Resta oprimido
 
o vulto travestido
de noite, distinto, quieto
sobre o límpido plano
atrasado do céu.
 
Há estrelas falhadas.
Dobradiças polidas. O gelo
flutua à deriva
no alto. Frio lento.
 
Uma sombra passa,
sobre o contorno sério
e mudo bate, sinistra,
seu secreto chicote.
Flagelação. Corais
de sangue ou luz ou fogo
sob as sedas se anunciam,
cedem, fogem logo.
 
Carne ou luz carnal,
profunda. O vento vive
porque antecipa lufadas,
cruzes, pausas, silêncios.
(p. 3-4)


Trata-se de um poema de claro toque surrealista, na clave da produção inicial de Aleixandre e que, conforme disse, demarca sua filiação à Geração de 27. Nele, a noite, fechada, transfigura-se ("Resta oprimido / / o vulto travestido / de noite") em crescente opressão. Ou mais, levando em conta o título e o próprio "clima" que o poema encena, a uma ideia de aprisionamento. Tanto eu-lírico (ou narrador terrível, diria) quanto o leitor são enfeixados em torno da noite assombrosa. E em meio a ela, o castigo ao mesmo tempo incorpóreo (a sombra) e físico (o chicote) impingido pela noite àqueles que a atravessam. Um castigo, no entanto, que não dura ("cedem, fogem logo") para dar lugar, ao fim da noite, a algo de luz que se insinua (ainda que uma "luz carnal"). Mas não é ela, a luz mortiça, que prevalece ao final da jornada noite adentro, mas sim aquilo que o leitor intui desde o início do périplo ("Campo nu. Apenas / a noite desarmada") e que, afinal se apresenta como chave-de-compressão do texto: "silêncios", palavra que podemos ler na linha final do texto. Dentro de uma perspectiva de escrita automática, adotada pelos escritores surrealistas (e, de certo modo, presente na própria concepção do movimento enquanto momento de abstração da arte e de construção de "sentido" a partir da montagem de imagens), podemos dizer que Vicente Aleixandre aqui leva essa premissa para uma espécie de surrealismo de horror (talvez presente, de certa visada, nos quadros de Dalí), i. .e, para a construção de imagens terríveis em busca de uma beleza presente no mistério e na incompreensão. E, friso, nos silêncios.



Outro poema que sinaliza a relação entre o poeta espanhol e a estética surrealista é "Poema de amor":


POEMA DE AMOR (1932)


Te amo sonho do vento
conflui em meus dedos esquecido do norte
nas doces manhãs do mundo de cabeça para baixo
quando é fácil sorrir pois a chuva é branda
 
No seio de um rio viajar é uma delícia
oh peixes amigos dizei-me o segredo dos olhos abertos
do meu olhar que vai dar no mar
sustentando a quilha dos distantes barcos
Eu os amo – viajantes do mundo –, aqueles que dormem sobre a água
homens que vão à América em busca de suas roupas
os que deixam na praia sua ferida nudez
e sobre o convés do barco atraem os raios da lua
 
Caminhar esperando algo é alegre é belo
a prata e o ouro não alteraram o fundo
saltam sobre as ondas e sobre as espumas
e fazem música ou sonho para os cabelos mais louros
 
Pelo fundo de um rio meu desejo escapa
dos inúmeros povos que nas gemas tiveram
trevas vestidas de negro
e ao longe desenhadas nas costas.
 
A esperança é a terra é a bochecha
é uma imensa pálpebra onde eu sei que existo
Lembra? Eu nasci para o mundo numa noite
em que somar e subtrair eram a chave dos sonhos.
 
Peixes árvores pedras corações medalhas
em suas concêntricas ondas – sim – detidas
eu me movo e giro e procuro o central
caminho – viajantes do mundo – do existente futuro
para além dos mares que em meus pulsos batem
(p. 11)


Sendo muitas vezes reputado como um poeta também de temática amorosa, o título deste poema aparentemente engana o leitor, como a mim enganou. Digo aparentemente porque os versos iniciais ("Te amo sonho do vento / conflui a meus dedos esquecido do norte / nas doces manhãs do mundo de cabeça para baixo") nos colocam no plano de um amor não-físico, não-pessoal, não-carnal, mas um amor-universal pelos elementos (e eles abundam pelo texto, como se vê/lê nas imagens montadas com a perícia poética). Não um discurso a/ao amado/amada, mas um discurso às coisas e ao sabor de passar por eles, viajar por elas, vê-las e recolhê-las como objetos-sensações. Um discurso ininterrupto, de um só fôlego, contínuo, perpétuo: o poema não apresenta qualquer pontuação e lê-lo é aderir a esse jorro, a esse rio no qual "viajar é uma delícia". De fato, o clima aqui é absolutamente oposto ao de "Noite fechada", outro é o diapasão, embora a estética surreal ainda os irmane. Porém, se lá as imagens são terríveis e noturnas, aqui elas são solares e extáticas e a própria lua, símbolo da noite, serve para banhar de luz os homens que "vão à América em busca de suas roupas / os que deixam na praia sua ferida nudez / e sobre o convés do barco atraem os raios da lua". A única menção ao elemento escuridão é das gemas no fundo dos rios, "trevas vestidas de negro". Mas antes de apresentá-las, o poeta já avisa: "dele(a)s meu desejo escapa". À medida em que o poema avança na viagem (dos homens, do poeta, nossa enfim pelos elementos que nos cercam), as imagens se sucedem dando ao texto a própria ideia de velocidade, melhor, de deslocamento, como se víssemos um filme em sucessão ("Peixes árvores pedras corações medalhas") enquanto seguimos. E é bastante significativo que a viagem que começou no rio de delícias, de ouro e prata imutável e de povos ancestrais, termine "para além dos mares que em meus pulsos batem", como se a imagem de um único mar fosse (e é) insuficiente para dar conta do cotejo entre o Todo (o existente, os elementos) e o homem navega.

Em sua segunda fase, a poesia de Vicente Aleixandre se torna mais concisa e, de algum modo, menos indomável, não abrindo mão, contudo, da afeição às imagens e aos efeitos que elas são capazes de construir. É o caso do poema que se segue:

A UMA CIDADE RESISTENTE (1962)
 
                                               Ruínas de Numância
                                    I
Nesta cidade morta há pó vivo.
Ao nível do chão passa o frio.
                                    II
Oh, cidade mergulhada no silêncio!
Todas as casas chegam ao céu.
                                    III
Entre colunas que não existem jazem,
distraídos e puros, todos os amantes.
                                    IV
Os guerreiros são um fragor de espadas.
Eterna música em uma noite branca.
                                    V
Dormes, donzela? Oh, não, nada perdes.
Considerada apenas, tua pupila é verde.
                                    VI
Oh, majestade desse clamor total.
Feroz cidade sobre uma perpétua colina.
                                    VII
A pedra descasca. Uma laje apenas.
Numância pronunciada, de pé, sólida. 
(p.51)


Numa entrevista à TV Espanhola logo após o anúncio do Nobel em outubro de 1977, Vicente Aleixandre concorda com a crítica na divisão de sua obra em dois blocos, acrescentando que o primeiro deles seria a relação do homem com o cosmos e que o segundo seria a do homem entre seus semelhantes. "A uma cidade resistente", embora também se apoie nos elementos e na construção de imagens, é um desses poemas, mesmo que promovendo um diálogo com uma distância de mais de 2.300 anos entre os homens de hoje e os antigos homens de Numância, cidade fundada pelos celtas no século III a. C. e localizada numa colina nas proximidades do Douro Espanhol, na região de Sória, e cujas ruínas são aqui evocadas. Um diálogo que começa com a vida que ainda pulsa na aparente morte da cidade em sua condição de sítio histórico ("Nesta cidade morta há pó vivo"), uma cidade fora do tempo ("Entre colunas que não existem"), mas que ainda conserva os amantes cristalizados ("[...] jazem distraídos e puros"), os soldados em posição de eterna guerra ("Eterna música em uma noite branca") e a donzela adormecida que o eu-lírico, desperta e reconstrói no etéreo ("Considerada apenas, tua pupila é verde"). Evocando também a ferocidade da cidade ("Feroz cidade sobre uma perpétua colina"), o poema realiza em suas linhas finais um corte, de natureza quase cinematográfica, ao focalizar as imagens na pedra descorada ("A pedra descasca. Uma laje apenas") em nosso tempo, mas ainda firme e altaneira ("Numância pronunciada, de pé, sólida") nele. Notem o caráter dúplice do vocábulo "pronunciada" no original espanhol e cujo sentido a tradução para o português mantém: pode se tratar tanto do discurso do qual o próprio poema é testemunha, como a própria cidade a se pronunciar, i. e., a manter a sua evidência a despeito do pó (vivo) que a recobre. 

Os três poemas aqui lidos dão uma pequena (mas irrefutável) prova da força da poesia de Vicente Aleixandre. Seja ao transitar por imagens que compõem o cosmo no qual se navega, seja ao evocar homens e espaços de outros tempos ainda a reverberar suas vidas e experiências, seus poemas indiciam a verdadeira função da linguagem poética: comunicar. Fazem também pensar que sua obra precisa e deve ser mais conhecida, como é o caso de tantos outros autores visitados neste projeto. Ao contrário de outros companheiros de geração, a obra de Aleixandre não empalideceu. E não apenas pela notoriedade que lhe foi conferida pelo Nobel de Literatura. Ela permanece vívida pela força imagética, pela riqueza verbal e pela capacidade de gerenciar o efeito sobre o leitor. Efeito que provém de uma lírica, digo sem medo de errar, poucas vezes igualada na poesia do século XX. 


Jorge Verly


Referência da leitura: ALEIXANDRE, Vicente. Noche cerrada. Biblioteca El Mundo. Madri: Unidad Editorial, 1998. 

domingo, 4 de agosto de 2019

Breve antologia, de Jaroslav Seifert


Olá,

No testamento de Alfred Nobel, uma das cláusulas estabelece que a justificativa para a atribuição dos prêmios que levam seu nome é a contribuição universal da obra, invento, descoberta ou atitude do laureado. Esta prerrogativa foi usada diversas vezes para explicar, por exemplo, a ausência de poetas considerados herméticos demais para serem lidos e compreendidos por um público amplo, cujo caso mais célebre é o do francês Paul Valéry, candidato tantas e tantas vezes e nunca agraciado com o Nobel. No plano oposto, poetas mais palatáveis e cultores de temáticas universais (sobretudo as amorosas) e amplas ganharam o prêmio, como Pablo Neruda ou Vicente Aleixandre. Jaroslav Seifert (1901-1986) situa-se num ente-lugar entre esses dois polos, a acessibilidade e o rigor formal. Escolhido como vencedor em 1984, este poeta tchecoeslovaco foi agraciado justamente por "sua poesia que, dotada de frescura e poder inventivo, oferece uma visão libertadora do indomável espírito e versatilidade do homem". Octogenário, Seifert não pode viajar a Estocolmo para receber seu prêmio, morrendo dois anos depois da honraria. Praticamente desconhecida fora dos circuitos leitores eslavos, o prêmio serviu de estímulo para que o público do mundo inteiro tivesses acesso a sua poesia lírica e inventiva, tal como asseverado pela Academia Sueca.
Infelizmente, não há livros integrais do autor publicados no Brasil. Para esta postagem, recorri a um livro encontrado quase que miraculosamente numa livraria online brasileira e que cobre, de maneira bastante sintética (infelizmente), a produção de Seifert: Breve antología, traduzido diretamente do tcheco por Clara Janes, a quem devo também o prefácio que auxilia o leitor não familiarizado com esta obra (o meu caso) a compreender influências, momentos e movimentos de uma poesia que, destaco já, tem o sabor de uma relevação. Como exercício e também como escolha, os poemas aqui citados foram por mim (mal) traduzidos desta edição espanhola, pelo que peço sinceras desculpas.


Janés destaca no referido prefácio que a poesia de Jaroslav Seifert pode ser dividida em três momentos distintos, embora percebamos ecos de uns nos outros: a do "poetismo", inspirada pelas lições dadaístas e pela poesia de Viteslav Nezcal e que recobre os anos 1920; a do lirismo clássico, bastante influenciada pelos acontecimentos históricos na Europa e em seu país, cobrindo os anos de 1930-50; e a fase metafísica, marcada por um maior rigor na concepção dos versos e na evocação das imagens, além de apresentar um amor incondicional à cidade de Praga, recorrendo os anos entre 1960-80.




Como exemplo da primeira fase, transcrevo o poema "Lâmpada":


Em redor da luz fria das lâmpadas
o bulício infatigável das asas agitadas

                E o senhor Edison
levantando os olhos do livro que lia
                sorriu
Ah, que quantidade de mariposas noturas
               salvou a vida!
(p. 110)


Temos aqui uma irônica visão do inventor da lâmpada, Thomas Edison, cercada de mariposas em torno daquela que uma noite iluminava seu momento de leitura. Alinhado com as vanguardas e com a cartilha do modernismo que, sobretudo, preconizava uma poesia eivada de sintetismo e de aproximação com o leitor através da reconstrução de imagens ("Em redor da luz fria das lâmpadas") e da recomposição de sensações quase tácteis ("o bulício infatigável das asas agitadas"), o poeta (re)cria um instante imaginado (mas absolutamente possível) em que este austero inventor, afeito à frieza dos cálculos e ao rigor de suas invenções - como são também rigorosos os poucos versos que a carpintaria de Seifert elege para compor seu poema -, tem uma epifania noturna, i. e., a ideia de que sua invenção mais famosa, a lâmpada, teve também uma função poética: salvar das mariposas que volteiam ao redor dela. A ironia, presente tanto no humor da cena como na eleição das palavras com as quais a constrói ("levantando os olhos do livro que lia / sorriu"), é o toque que confere vitalidade ao poema. Vemos neste texto curto, escrito em meados dos anos 1920, as marcas daquilo que chamou a atenção do júri sueco sessenta anos depois na atribuição do Nobel a Seifert: uma poderosa capacidade de inventar e também uma reconstrução das facetas humanas de cada ser, seja ele um celebrado inventor, seja ele o leitor do poema, ambos irmanados pela beleza que as "asas agitadas" do enxame de mariposa produz. 

E é nessa recomposição rigorosa da existência humana que intervém a História e sua(s) arbitrariedade(s), característica que, conforme vimos, marca a segunda fase da produção de Jaroslav Seifert. É o caso do poema "Sobre a ponte de Troia se encontrava ainda":

Sobre a ponte de Troia se encontrava ainda
              o exército de Schörner,
mas os alemães já estavam em fuga.
E os desejos amamentados em sangue
se estendiam da esperança à segurança.
E a segurança é um metal
               com o qual se pudem cunhar moedas
com o sorridente rosto da liberdade.

Maio pertencia em outros tempos aos amantes,
mas agora já não lhes pertence de todo.
                Os homens correm em busca das armas
escondidas debaixo das raízes das ervas
                que sabem calar.
Se houvessem tido mais tempo,
teriam derrubado até sua própria casa 
                 para fazer mais sólidas as barricadas
e em lugar de tapá-las com sacos de areia
                 teriam-no feito com seus próprios corpos.

Que pena que não ouvi
o que disse a enfermeirinha
                que corria com as bandagens!
Ainda se disparava!
                Tinha sangue no uniforme
e barro nas bochechas,
mas havia em seus olhos algo tão belo
que estremeci.
O primeiro soldado russo nos deixou nas mãos
uns punhados de tabaco negro.
Mas antes que pudesse encher meu cachimbo,
a guerra havia acabado.
(p. 41)

O mote do poema, como se percebe inicialmente - a clareza da poética de Seifert - é o final da Segunda Guerra Mundial, num espaço específico dos Bálcãs ("Sobre a ponte de Troia"), entre a fuga dos soldados alemães derrotados e a iminente chegada do exército soviético com o objetivo de libertar a região. Mas a despeito dos dêiticos e das marcas linguísticas que o poema apresenta ("ponte de Troia", "exército de Schörner", "primeiro soldado russo", "barricadas mais sólidas"), há também um movimento que indica a transição política pela qual a Tchecoslováquia passaria dali em diante com a implantação do socialismo no país. Isso pode ser percebido sub-repticiamente - o caráter inventivo da poética de Seifert - pela eleição de um espaço distante geograficamente para situar a "cena" retratada no poema e que indica a interdição em tratar do tema já sob o jugo do novo regime político que se instalou na pátria do poeta após o fim da guerra. Para tanto, Seifert se vale do recurso à ironia na construção dos quatro versos que encerram o poema:

"O primeiro soldado russo nos deixou nas mãos
uns punhados de tabaco negro.
Mas antes que pudesse encher meu cachimbo,
a guerra havia acabado."

O ato de encher e fumar o cachimbo, um desafogo em meio à carnificina de momentos antes, é interrompido justamente pelo final da guerra. Este ato irônico, pela potência de crítica inerente a esta figura de linguagem, pode ser lido como uma crítica ao próprio socialismo, i. e., à interdição da liberdade que o fim da guerra prenunciara, mas que o domínio soviético tampouco permitiria nos anos que se seguiram.

E é aí que a poesia de Jarsolav Seifert entre em sua última e mais vigorosa fase. Como se fugisse do real (sem contudo abandoná-lo),  os poemas escritos a partir dos anos 1960 até o final da vida do poeta se vestirão de uma capa metafísica e de um rigor ainda maior na constituição formal. Tomemos como exemplo "Na Vila Bertramka":

Se alguma vez existiu o paraíso,
                  não foi neste planeta.
A Terra gira ao redor de seu eixo
para que o o tempo
de todos os sofrimentos humanos
eternamente flua.
Contudo, o paraíso existiu. 
                 Sem dúvida, em alguma das estrelas.
Quem pode indicar com precisão
onde se encontram esses jardins celestiais?
Mas se existe no paraíso a beleza,
não podemos imaginá-la
a não ser recordando nosso mundo.
Os encantos das mulheres,
                  o perfume das flores,
a alegria das crianças
                  e as cores das asas das mariposas.

Se o céu está lá.
                  não pode haver debaixo dele lugar para a dor.
As pessoas lá não choram
e as lágrimas são mais escassas
que as pérolas em nossos rios.

Ali chegou.

E quando se pôs a tocar
e a trança se movia em suas costas,
deixaram de sussurrar até as conchas 
e aguçaram suas orelhinhas de porcelana.
Por que não pensaram em fechar a porta?
Por que não desengancharam os cavalos da carruagem?
Ele foi embora tão cedo!
                    E pelas portas da terra negra
voltou ao lugar de onde viera.

Atrás dele restou apenas uma pobre mecha de cabelo,
                    além de outra coisa
que faz a vida mais bela.
(p.59)

Uma nota da tradutora ao poema indica que a Vila Bertramka era o local preferido do compositor Wolfgang Amadeus Mozart em Praga, cidade que ele amava e à qual, assim como o próprio Seifert, dedicou algumas de suas mais belas composições. O poeta, aliás, escreveu um livro sobre a relação entre o compositor e sua amada cidade, Mozart em Praga (1985). O poema em tela retrata a busca por uma recomposição da beleza e que mobiliza cada um de seus versos. Assim é que a temática central, "Mas se existe no paraíso a beleza, / não podemos imaginá-la a não ser recordando o nosso mundo", carrega uma evocação do belo (a poesia, a música) através de sua mímese com o mundo, o real, o existente. Na impossibilidade de falar do real concreto (a Tchecoslováquia socialista), Seifert buscará na figura de Mozart um espaço para a construção do paraíso. As imagens e figurações que o poema vai montando ("os encantos das mulheres", "as cores das asas das mariposas", a impossibilidade de dor debaixo do céu daquela Praga anterior) conduzem à cena em que o compositor toca uma de suas obras e tudo ao redor dele se paralisa ante a beleza do que se vê-ouve: as conchas, os cavalos, as pessoas e as portas estão como que congelados, apreciando tão grande beleza. O poema lamenta a partida repentina (e dupla: de Praga e da vida) de Mozart, lembrando que ele deixou "pouco", uma pequena mecha de cabelos e "outra coisa / que faz a vida mais bela", i. e., sua música e toda a carga de encanto que ela traz em si e que este poema tão bem foi capaz de representar.

Os exemplos acima, espero, convidam a uma leitura mais ampla da obra deste poeta que, caso o Nobel não revelasse, ficaria restrito a um circuito pequeno de leitores. Eis aí a função, como já apontado em outras postagens deste blog, do prêmio: relevar autores, obras, temáticas e contextos de lugares distintos, pequenos e por vezes ignorados, mas que tem o toque da universalidade e contribuem para o benefício da humanidade, como desejou Alfred Nobel em seu testamento. Algo que Jaroslav Seifert certamente proporcionou com seus belos, fortes, inesquecíveis poemas.

Jorge Verly


Referência da leitura: SEIFERT, Jaroslav. Breve antología. Trad. de Clara Janés. Madri: Hiperión, 1984. 


Noche cerrada, de Vicente Aleixandre

  Olá, Vicente Aleixandre (1898-1984) tinha quase 80 anos e era o mais consagrado poeta espanhol de sua geração quando foi anunciado como o ...