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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Quase uma elegia, de Joseph Brodsky



Olá,



É evidente que num escopo pequeno de 116 laureados, o Prêmio Nobel de Literatura tenha cometido inúmeras  injustiças. Não me refiro aqui aos que foram premiados, mas àqueles que deixaram de sê-lo. É imperdoável que autores como Proust, Virginia Woolf, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Julio Cortázar, James Joyce, ou Philip Roth tenham morrido sem recebê-lo. Mas também é verdade que, muitas vezes, o Nobel foi justíssimo com autores que mereciam realmente a medalha, o diploma e o milhão de coroas suecas que estão atrelados ao prêmio. Um desses casos foi o do poeta russo naturalizado americano Joseph Brodsky (1940-1996), premiado em 1987 em razão de "sua autoria abrangente, caracterizada por nitidez de pensamento e intensidade poética", nas palavras do comitê julgador. De fato, sua poesia tem como marcas distintivas a clareza com que esquadrinhou o mundo e a alta voltagem lírica que foi capaz de produzir em seu contato com os seres e as coisas sobre as quais escreveu. Nascido em Leningrado durante a Segunda Guerra Mundial, a relação de Brodsky com as autoridades soviéticas foi sempre problemática e marcada pela dissidência política, embora ele se considerasse apolítico. Acusado de "parasitismo social", foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados no Ártico, permanecendo lá por dezoito meses. Perseguido pelas autoridades de seu país, foi expulso da União Soviética em 1972, emigrando para os Estados Unidos, onde lecionou em diversas universidades. Brodsky também passou a escrever em inglês, atingindo um conhecimento do idioma que muitos consideravam superior ao de outro ilustre conterrâneo e exilado na América que também adotou este idioma como expressão literária: Vladimir Nabokov, outro injustiçado pelo Nobel. O poeta morreu prematuramente de infarto em Nova York aos 55 anos de idade.

Embora o autor tenha tido uma traumática experiência política em seu país natal, a poesia de Brodsky apresenta uma espécie de "dissidência lírica" e não proeminentemente engajada. Ele sempre dizia que sua ojeriza às figuras de Lênin e Stálin se devia muito mais a onipresença de seus retratos por todo o país do que necessariamente por uma discordância ideológica de suas posições. Sua crítica se devia basicamente à interdição ao livre pensamento e à expressão artísticas em um regime totalitário. Daí sua obra se apoiar na busca por esta expressão, na clareza das ideias e na síntese imagética, sem esbarrar numa dicção política como ferramenta crítica.

Infelizmente, no Brasil não há obras integrais de Brodsky em tradução. Há apenas a coletânea de ensaios Menos que um (1986) e o romance em prosa poética Marca d´água (1992), uma homagem a Veneza, cidade onde ele foi enterrado. Quanto a sua poesia, o único livro disponível no Brasil é brevíssima antologia Quase um elegia, publicada pela Sete Letras em 1995 e com traduções de Nelson Ascher e Boris Schnaiderman. Trata-se de uma edição hoje raríssima e que será a base para as leituras e análises que aqui serão feitas. 

Começo com a transcrição do poema que titula o livro, escrito em 1968, ainda durante seu período soviético:

Também eu aguardei na colunata
da Bolsa, outrora, o fim da chuva fria.
Julgava-a dom de Deus. E era sensata 
minha suposição. Pois algum dia 
também eu fui feliz. Fui prisioneiro 
dos anjos. Combatia monstro horrendo.
Feito Jacó, fitava, sorrateiro,
uma beldade - rápido - descendo
a escada principal.
                              Aonde tudo
se foi. Sumiu. Olho janela afora:
o "aonde" acima, eu o escrevi, contudo,
sem ponto de interrogação. Agora 
é Setembro. Um trovão distante invade
meu ouvido. Eis um horto. Peras pensas,
cheias de seiva nas ramagens densas,
parecem signos de virilidade. 
E o ouvido admite, como gente avara,
parentes na cozinha, um som assíduo
de chuva que, na mente, sem chegar a 
música ainda, é mais do que ruído. 
(p. 17)


Pleno de sensações e com um métrica - que, não sei até que ponto, a tradução para o português logrou recuperar - que lembra o mote da chuva, este poema é bastante representativo da produção de Joseph Bordsky na medida em que se constrói não como uma elegia tradicional, mas como uma evocação a um tempo, e, em especial, a um dia (aquele em que o eu-lírico aguardou, na escadaria do antigo prédio da bolsa de valores de São Petesburgo/Leningrado e tendo com guarda a magnífica série de colunas do edifício) cuja memória é a chuva fina e a expectante presença de uma bela dama (que, afinal, não apareceu) que desceria com ele as escadas. Embora o poema remeta a um tempo feliz ("Pois algum dia / eu também fui feliz") e tenha como contraponto as então vicissitudes enfrentadas por Brodsky na União Soviética, o que resta é a sensação que, remodelada pela poética, torna-se um amálgama em forma de música, ainda que precária ("sem chegar a / música ainda, é mais que ruído"). Ou seja, sem subverter o gênero elegíaco, o poema termina com a evocação de uma felicidade que o eu-lírico esperar recuperar e suster, ainda que no espaço reduzido - e em seu tempo fugaz - do texto. Misturando estilos e temáticas (o bíblico ["dom de Deus", "prisioneiro dos anjos" e "Feito Jacó, fitava, sorrateiro"], locus amenus do estilo árcade ["eis o horto", "peras pensas" e "ramagens densas']), sua estética resulta numa síntese da própria história da poesia, densa e altamente comunicativa. 




Outro exemplo da estilística virtuosa, agora com um tom de humour, é "Explorador polar", um dos mais conhecidos poemas de Brodsky:


Devorados os cães. Não resta espaço
no diário. Há na foto, pois, da esposa,
um colar de palavras: bem na face, 
a pinta de uma data duvidosa. 
Sobre a foto da irmã nem titubeia:
registra a latitude que atingiu!
Negrejando, a gangrena, feito meia
de uma vedete, chega-lhe ao quadril.
(p. 29)


Uma mirada na biografia do autor nos leva a intuir que a temática do poema foi retirada de duas experiências da vida do poeta na União Soviética dos anos 1950-60: seu período como assistente em expedições de reconhecimento e recolha de elementos geológicos pelo país e, depois, sua prisão nos campos de trabalhos forçados em Arkhangelsk, na saída para o Ártico. A perícia poética de Brodsky transforma a terrível imagem de um hipotético explorador polar - perdido nas extremas latitudes do planeta, condenado pela gangrena provocada pelo frio extremo e já ensandecido pela impossibilidade de continuar - em um texto pleno de humor e ironia. A "narrativa" é construída, verso a verso, a partir das imagens em sucessão: o leitor tem a impressão de que observa fotografias que, à medida em que são passadas, montam o retrato completo da loucura daquele homem, faminto ("Devorados os cães"), ferido de morte ("a gangrena, feito meia / de uma vedete, chega-lhe ao quadril") e obcecado em continuar registrando sua jornada ("Sobre a foto da irmã nem titubeia: registra a latitude que atingiu!"). O texto pode ser lido como uma irônica ode em louvor da tenacidade humana, na medida em que nada mais resta à personagem que não registrar, registrar e registrar, não importando mais os laços de parentesco (os retratos da mulher e da irmã não são mais recordações da vida deixada na civilização, mas sim meros papéis a servir ao seu intento) ou mesmo a saúde (a negra meia que é sua perna gangrenada). Seu único intento - e é a imagem que permanece mesmo ao final da leitura - é atingir o extremo da zona polar e deixar um testemunho vivo de seu feito. 

Outro poema bastante célebre da produção do poeta russo é "Para Urânia" e que, evocando a leitura deste feita pelo também poeta e amigo W. H. Auden, é representativo de sua face "tradicionalista", i. e., da releitura da tradição poética empreendida em sua obra. Cito-o integralmente:


Tudo tem seu limite, mesmo a mágoa.
O olhar - folha na cerca - é cerceado
por vidro. Agites chaves, vertas água:
a solidão é o homem ao quadrado.
Um dromedário franze, ao cheirar trilhos,
o cenho. Descortina-se o vazio.
E o próprio espaço enfim, ele não consta
da ausência só de um corpo em cada ponto?
Por isso Urânia é mais velha que Clio.
De dia e à luz de cegos candeeiros,
vê que ela nada oculta e, olhando fixo
o globo, vê-se a nuca. Os bosques, ei-los,
repletos de mirtilos, rios onde, às
mãos nuas, há esturjões que se oferecem,
cidades cujas listas telefônicas 
já não te incluem. Ao sul, melhor, sudeste,
pardejam as montanhas, éguas correm 
selvagens entre amieiros; ficam fulvas
as faces. Singram longe os cruzadores,
e a amplidão - lingerie rendada - azula.
(p. 35)


Urânia a quem o poema é dedicado trata-se de uma das nove musas, filha de Zeus da deusa Memória (Mnêmosis) e protetora, entre outras coisas, da astrologia, sempre representada em tons de azul e segurando na mão esquerda o globo terrestre. A reconstrução de sua imagem empreendia pelo poema vale-se de uma filtragem da tradição pelo crivo da modernidade, i. e., o que Urânia observa ao fitar o globo não é o mundo antigo em que fora gerada, mas nossos tempos, povoados da densa solidão do homem moderno ("a solidão é o homem ao quadrado", certamente um dos mais inesquecíveis versos da produção brodskyiana). Sendo ela mais velha que a própria criatividade (Clio), representa a preponderância do mundo sobre a invenção, o que nos remete ao velho telos filosófico da dualidade entre o sujeito e o objeto, aqui belamente trabalhado pela capacidade imaginativa de Brodsky: e o que seriam os versos "há (...) / cidades cujas listas telefônicas / já não te incluem" senão uma reversão da dialética (nos moldes de um Adorno, por exemplo) que põe o sujeito como senhor do objeto? Mudando o conceito de lugar, é o mundo e seus elementos que, empunhados por Urânia, fizeram nascer o homem, como o poema faz crer. Ainda que todo o invento e toda a criatividade humana vicejem pelo globo terrestre ("Singram longe os cruzadores"), é ela quem tudo governa ("a amplidão - lingerie rendada - azula"). A (re)leitura da tradição aqui resulta na própria revelação da condição humana e de sua característica solidão.

Estes exemplos da obra de Brodsky reforçam o poeta formidável, o gigante da lírica e o esteta sempre preocupado com a imagem que ele foi. Os três poemas aqui (parcamente, reconheço) analisados, colhidos de sua produção sempre excelente, sozinhos justificariam sua escolha para a maior honraria literária do planeta. No entanto, é fácil perceber que não foi ele quem mereceu o Nobel, mas sim que foi o prêmio quem ganhou com sua eleição. Como disse antes, há lacunas irreparáveis na lista dos vencedores. Por isso, a escolha de um autor tão irrepreensível tem a função de uma reparação: sim, não premiamos Auden, Valéry ou Celan, mas premiamos Joseph Brodsky! 

Jorge Verly

Referência da leitura: BRODSKY, Joseph. Quase uma elegia. Trad. de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, de Alexander Soljenítsin



Olá,


As relações entre a Academia Sueca e a União Soviética foram marcadas por controvérsias e dissonâncias. Cinco autores russos foram laureados durante a vigência do regime socialista no país e, destes, apenas um recebeu as "bençãos" (leia-se "autorização") das autoridades soviéticas para desfrutar do prestígio e do reconhecimento que o Prêmio Nobel costuma trazer: Mikhail Cholókov, ganhador em 1965, autor alinhado ao governo e, embora detentor de inegável valor artístico e visão narrativa, condescendente com certos horrores e expurgos praticados pelo regime comunista. Os outros quatro não tiveram a mesma sorte. Enquanto Ivan Bunin e Joseph Brodsky viviam no exílio quando foram premiados (1933 e 1987, respectivamente), Boris Pasternak simplesmente foi coagido a declinar da honraria (1956). Já Alexander Soljenítsin (1918-2008), embora tenha sido autorizado a aceitar o Nobel de 1970, foi impedido de viajar a Estocolmo para recebê-lo, sob a pena de não mais poder voltar à União Soviética. O autor, dissidente do governo comunista e denuncista das barbáries perpetradas contra aqueles que, como ele, discordaram dos rumos da política soviética, só pode receber seu Nobel em 1974, quando foi expulso do país, só retornando nos anos de 1990 após a queda do regime.

Na exposição de motivos da Academia Sueca para a atribuição do prêmio ao autor russo não há nenhuma menção explícita ao seu compromisso político enquanto crítico do poder soviético. Talvez para evitar atritos, como no caso de Pasternak, o comitê escreveu: "O Prêmio Nobel de Literatura de 1970 é atribuído ao escritor soviético Alexander Soljenítsin, pela força ética com a qual ele tem perseguido as indispensáveis tradições da literatura russa". Ao referirem-se à "força ética" que atravessa a obra deste escritor, os suecos faziam apenas uma oblíqua relação entre os romances e livros de memória do autor, sobrevivente dos campos de trabalhos forçados, e a delicada situação dos presos políticos em seu país. 

Os livros de Soljenítsin, enquadrados naquilo que se convencionou chamar de "literatura de testemunho" (sobretudo na ampliação do conceito para além das narrativas específicas sobre o Holocausto), foram quase todos publicados no exterior e apenas circularam na União Soviética de forma clandestina. Uma exceção é o romance Um dia na vida de Ivan Deníssovich, obra que escolhi como leitura para esta postagem e publicada naquele país em 1962. Este talvez seja o livro mais conhecido do autor, quer pela temática da opressão stalinista sobre os indivíduos dissidentes, quer pela crueza com que os fatos são ali narrados. 




Assemelhado a um relatório burocrático a respeito do cotiano em um dos muitos de campos de trabalhos forçados espalhados pela União Soviética durante o governo de Stalin, o texto é duro e, ao mesmo tempo, bastante detalhista em relação àquilo que nele ocorre, como lemos desde o parágrafo que abre o livro:

"Como habitualmente, às cinco da manha ouviu-se o toque da alvorada, dado pelos golpes de um martelo sobre um pedaço de trilho suspenso junto da barraca de comando. Mal os sons intermitentes haviam penetrado através das vidraças das janelas, nas quais a geada se acumulara numa espessura de quase dois centímetros, e já o ruído cessava quase imediatamente. Fazia frio no campo e os guardas não sentiam vontade de continuar a dar o toque de alvorada por muito tempo" (p. 5)

A figura central do romance é Ivan Denissóvitch Chukov, um ex-combatente que fora acusado de espionagem para os alemães na fase final da Segunda Guerra Mundial, nas proximidades da fronteira do Cazaquistão, onde aliás se localiza o campo da narrativa. Como previsto no famigerado Artigo 58 do Código Penal Soviético, ele fora para lá mandado para cumprir uma pena de dez anos que, no momento da narrativa, centrada em um dia, do amanhecer ao anoitecer, encontra-se quase em sua conclusão. É inevitável para o leitor que conheça a biografia de Soljenítsin associar Deníssovitch à figura do próprio escritor, uma vez que ao final da Segunda Guerra ele mesmo fora acusado de propaganda anti-stalinista e condenado à passar uma década em um campo de trabalhos, período após o qual, caso sobrevivesse, viveria o resto de seus dias em um exílio interno.

Sobreviver, aliás, é o motor que guia a sofrida existência da personagem. No dia em particular em que o acompanhamos através da leitura, curta e dolorosa, encontramo-no às voltas com situações limites, em que o minuto seguinte parece encerrar em si o fado de toda sua vida: acorda atrasado e vê-se obrigado a tergiversar com o guarda para escapar da punição na solitária; dirige-se à enfermaria na vã tentativa de conseguir uma dispensa e a consequente autorização para passar um dia de beatitude na cama, longe do trabalho (o que não acontece); olha expectante para o termômetro na esperança de que esse, ao marcar 41 graus negativos (o que também não acontece), dispensasse todos os prisioneiros do dia árduo de trabalho na neve; tenta consertar botas e luvas para lá de gastas para poder ter um dia de menos frio nas mãos e pés; esconde um pedaço de metal para utilizar como faca durante as refeições, temendo que seu "furto" seja descoberto na revista obrigatória ao final do dia de trabalho; negocia um punhado de tabaco com os afortunados que o recebem de casa (ele nada recebe, sequer notícias da esposa de quem se vê há tanto separado, um amor endurecido pela própria dureza da vida na prisão); negocia restos de sopa aguada com outros prisioneiros famintos como ele no refeitório; emprega o máximo de suas forças na construção de uma inútil parede de tijolos num galpão inservível em meio ao mar branco de neve para poder descansar alguns minutos a mais perto do fogo. Etc etc etc. Todos esses eventos do dia na vida de Ivan Deníssovitch  são, na escrita áspera de Alexander Soljenítsin, um momento que encerra, no indivíduo, a dor de uma existência vivida sobre o signo da opressão mais absoluta, mais inexorável, onde o mínimo sinal de esperança é imediatamente seguido de sua antípoda, a crudeza do real:

"Os homens aproximaram-se no fogão, mas imediatamente Pavlo os obrigou a se afastarem. Depois deu a Kilgas madeira, a fim de que ele fizesse tabuleiros para transportar a argamassa até o pavimento superior. Pôs mais dois homens para carregar areia, outros para varrer a neve do andaime onde eram colocados os blocos e um para retirar a areia quente da chapa do fogão e lançá-lo na caixa da argamassa". (p. 72)

Esta áspera e mecânica (como é toda a narração impessoal em terceira pessoa que configura o romance) descrição de um rol de tarefas dadas por Pavlo, o prisioneiro encarregado da turma de trabalho nº 104 da qual Deníssovitch faz parte, vem precedida do aparentemente corriqueiro enunciado inicial "Os homens aproximaram-se do fogão". Num contexto livre, tratar-se-ia apenas das necessidades laborais a interromper o despretensioso momento de descanso de um grupo de operários junto ao fogo. No entanto, para prisioneiros de um campo cercado de neve e perdido em meio às vastidões desoladas da União Soviética, obrigados a um trabalho em tudo inútil e desgastante, no limite mesmo de suas forças e de sua sanidade, o vislumbre do calor do fogão e sua imediata retirada para as tarefas coletivas significa a interrupção de uma breve possibilidade de redenção, de alento ao sofrer de cada dia.

A sucessão de eventos, do dia à noite, pelos quais passam Deníssovitch e seus companheiros de prisão reiteram o tempo inteiro esse sofrimento. As razões que cada um carrega em si como "justificativas" para o encarceramento, todas centradas no descumprimento do Artigo 58, em especial Deníssovitch, já não pesam por sua absoluta insensatez: vale muito mais escapar trabalhando, i. e., realizar o duro trabalho na expectativa de cumprir o dia, para que outro venha a ser cumprido, todos em melancólica sucessão, com o fito de, caso sobrevivam, possam experimentar alguma espécie de recompensa, ou seja, possam viver longe dali. Já não importa serem culpados ou inocentes - todos o somos, de alguma maneira. Importa sobreviver à culpa ou à inocência. 

Por esta razão, soa muito comovente o encerramento do romance, quando as luzes no campo são apagadas ao final do dia, quando Ivan Deníssovitch escapa incólume à última inspeção, quando contabiliza o pedaço de pão a mais economizado em face do que conseguiu surrupiar no refeitório, quando contempla a barrinha de metal que conseguiu enfim esconder, quando enfim, ainda que parcamente desanimalizado, faz as contas do dia que passou:

"Um dia sem uma nuvem carregada, sombrio. Quase um dia feliz.
Contava já no seu ativo três mil seiscentos e cinquenta e três dias como este. Desde o primeiro até ao último toque no pedaço de trilho.
Os três dias suplementares pertenciam a anos bissextos." (p. 196).

Ainda que esta conclusão remeta à repetição das mesmas vicissitudes no dia que se seguirá (a referência ao toque no metal do trilho que se ouvirá no dia de amanhã), não podemos deixar de lê-la como uma ode à sobrevivência. Se o romance de Soljenítsin tem como potência a denúncia de um regime bárbaro como o de Stalin - e uma das razões para a autorização do governo de Kruschev para a publicação do livro foi justamente a de denunciar o stalinismo -, salta dele também este laivo de redenção. Porque aquele que sobrevive conta. Leva a tocha adiante, testemunha que foi do horror e, no caso dos grandes escritores como foi Alexander Soljenítsin, portador do compromisso de passá-la aos da frente, àqueles que, como nós, tem algum poder - ainda que por meio da leitura de literatura - para impedir a repetição do horror. 

Jorge Verly

Referência da leitura: SOLJENÍTSIN, Alexander. Um dia na vida de Ivan Deníssovitch. Trad. de H. Silva Letra. São Paulo: Círculo do Livro, 1974. 


sábado, 13 de julho de 2019

O Processo do Tenente Ieláguin, de Ivan Bunin


Olá,

O Prêmio Nobel de Literatura de 1933 foi concedido a um escritor apátrida. Ao menos, ele assim foi predicado pela Academia Sueca quando seu nome foi anunciado como vencedor da honraria, embora pessoalmente se considerasse um russo exilado na França: falo de Ivan Bunin (1870-1953), para quem o Nobel foi outorgado em razão da "habilidade artística precisa com que deu continuidade às tradições clássicas russas na prosa". No entanto, mesmo sendo considerador por Tchekhov "um igual" e - desde a publicação de A aldeia, uma de suas mais conhecidas obras - tenha figurado entre os grandes nomes da moderna prosa daquele país, as autoridades soviéticas praticamente extirparam as narrativas de Bunin da vida literária russa após a Revolução de 1917, razão pelo qual seu nome era praticamente ignorado na União Soviética quando o prêmio lhe foi concedido. A antipatia do regime comunista em relação aos romances e contos do autor tinha razão menos nas questões temáticas e mais no fato de o escritor ter emigrado para a França logo após a eclosão da revolução de outubro e da guerra civil que veio em seguida para, desde então, tornar-se um crítico do regime.

Querelas à parte, passemos a um exame da obra de Ivan Bunin. Escolhi como leitura a novela O processo do Tenente Ieláguin, publicada na França em 1931. A despeito da data de publicação e de seu contexto, a narrativa está recuada para a segunda metade do século XIX, ainda no tempo do Império. Entretanto, não há na narrativa nenhuma referência aos elementos políticos e às particularidades do czarismo que, algumas décadas depois, resultariam na tomada do poder pelos bolcheviques. Aliás, podemos dizer a "história" de O processo do Tenente Ieláguin  é a-política, a-histórica, a-militar e, por que não dizer, amoral: tudo o que nela ocorre (inclusive a política, a história, as questões militares e a própria moral) é dragado pelo trágico destino do tenente Aleksandr Ieláguin e sua amante, a atriz Mária Sosnóvskaia.


A estrutura do texto é fragmentária. Seus 14 pequenos capítulos apresentam uma multiplicidade de narradores, tempos e vozes narrativas. A história começa como se contada por um periódico local que, utilizando um adjetivo de sentido geral e de fácil compreensão e apelo ("horrível"), quisesse universalizar e dar cores dramáticas ao crime de que será objeto a narrativa: 

"É um caso horrível - estranho, enigmático, insolúvel. Se, por um lado, é muito simples, por outros é bem complexo, assemelhando-se a um romance em folhetim (aliás, era assim que todos se referiam a ele em nossa cidade) e, ao mesmo tempo, poderia servir de assunto para uma das obras de arte das mais profundas" (p. 155)

O crime complexo, simples, banal, profundo, desinteressante, mesmerizante a que se refere o narrador impessoal que começa a contar a história é o assassinato de Sosnovskáia pelo Tenente Ieláguin. Certa manhã ele irrompe no apartamento de seu comandante de regimento, o capitão Likhariev, e confessa ter matado a amante. Likhariev, que àquela hora da manhã se encontra ainda sonolento e meio bêbado, duvida de Ieláguin, pensando tratar-se de uma brincadeira do militar. No entanto, ante as insistências do infeliz, o capitão ordena a seus subordinados que procurem o chefe de polícia e, com ele, partam ao local indicado por Ieláguin, onde descobrem o corpo da atriz.  Daí em diante, o leitor é levado pelas muitas vozes que compõem a novela a vislumbrar os eventos da tumultuada relação que resultou na morte da bela mulher. Digo vislumbrar porque nada é certo ou claro no texto. Na verdade, a estratégia fragmentária escolhida por Bunin para contar a vida do casal concorre justamente para reforçar a dubiedade que é característica da obra. Aliás, tanto Sosnóvskaia quanto Ieláguin são retratados como personagens dúplices e ambíguas. Enquanto ele é visto por suas cartas (que também fazem parte da narrativa) e pelos relatos de várias testemunhas (sobretudo dentro do processo que se segue ao assassinato da atriz) como um sujeito ao mesmo tempo honrado, leal e fiel aos preceitos da carreira militar que escolheu e obcecado pela paixão que atravessou sua trajetória, Sosnóvskaia é apontada como uma mulher desapagada de seus amores (chegando a ser cruel ao abandonar vários deles sem motivo) e devotada a sua arte,  bem como uma pessoa fascinada pelo espectro da morte, como lemos em seu diário:

"Hei de escolher para mim um bela morte. Alugarei um quartinho e mandarei forrá-lo de crepe. Deverá haver música tocando do outro lado da parede, eu me deitarei num modesto vestido branco, rodar-me-ei de flores sem conta e o seu aroma me matará. Oh, como será magnífico!" (p. 183).


À medida em que o leitor vai avançando na tentativa de recompor, pelos fragmentos que Bunin disponibiliza (cartas, processos, diários, reportagens), o que aconteceu, também se aventura na tentativa de compreensão da psicologia que está por detrás do ato radical perpetrado por Ieláguin contra Sosnoskáia. O desfecho da novela traz a confissão final do tenente sobre o que de fato ocorreu no quarto da casa em que ele e a atriz se encontraram na noite fatídica. Assim como está posto deste o início, não restam dúvidas de que Ieláguin matou a amante. No entanto, as razões expostas por ele, que se insinuam aqui e ali ao longo do texto, ganham potência quando enunciadas por sua própria voz diante do público que o ouve assombrado no salão do júri. Mais que potência, ganham verdade. 

Uma verdade, porém, que não ganhará o crédito total do leitor, pois ainda que julguemos entender porque ele atirou no peito de sua amante, ficamos sem saber (aliás, Bunin não inclui a sentença do juiz ao final da narrativa) se o motivo, embora justificável, seja de fato justo. Explico-me: assim como o Raskolnikov de Crime e Castigo julgava saber exatamente porque havia matado a sua senhoria, Ieláguin também foi capaz de enunciar claramente as intenções por detrás do tiro disparado contra Sosnoskáia. No entanto, ambos seguiram (como nós seguiremos) torturados por essa pretensa clareza de razões que, em confronto com a racionalidade, expõem na verdade o desvario dos sentimentos não-racionalizados que, ao fim e ao cabo, estão por detrás dos atos de ambos. 

Nesse sentido, é inegável o parentesco entre a novela de Ivan Bunin e a narrativa clássica russa, tal como lemos na exposição de motivos da Academia Sueca para o Nobel dado ao autor. Assim, a duplicidade entre a arte e a atração pela morte apresentadas pela personalidade da Sosnóvskaia, bem como a tortura pela qual Ieláguin se vê obrigado a passar, entre a lealdade a seus valores e a loucura de sua arrebatadora paixão, fazem desta obra uma vizinha bastante próxima das narrativas de Tchekhov, de Turgueniev ou mesmo de Dostoiévski, autores com quem Ivan Bunin, sem superar artística e tematicamente, pode claramente figurar em certo grau de igualdade. Sem ser o maior autor russo da transição do século XIX para o XX, ele representou dignamente a literatura daquele país quando foi escolhido como seu primeiro autor a receber um Prêmio Nobel.

Jorge Verly

Referência da leitura: BUNIN, Ivan. O Processo do Tenente Ieláguin. In: Amor de Mitia e outras obras. Trad. de Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1973, p. 153-210. 

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